Aproximação do Filme Cisne Negro aos Conceitos Kleinianos
- Psicóloga sp, Maristela Vallim Botari CRP 06121677

- 1 de fev.
- 3 min de leitura
O filme Black Swan, estrelado por Natalie Portman, nos conduz por uma narrativa intensa sobre os conflitos do inconsciente, os limites da perfeição e as dores emocionais que podem surgir das relações familiares. A trama acompanha Nina, uma bailarina extremamente disciplinada que busca alcançar a perfeição dentro de uma companhia de balé. Quando é escolhida para interpretar o clássico Cisne Branco e Cisne Negro, ela se vê diante de um enorme desafio: embora domine a técnica com excelência, não consegue acessar a sensualidade e a intensidade emocional necessárias para viver o Cisne Negro.
No balé encenado dentro do filme, a história gira em torno de uma jovem aprisionada no corpo de um cisne branco, aguardando o beijo verdadeiro que a libertaria. No entanto, sua irmã gêmea seduz o príncipe amado, mergulhando-a em profunda tristeza e levando-a à destruição. Essa dualidade entre inocência e sedução reflete diretamente o conflito vivido por Nina.
Ao longo da narrativa, Nina passa a competir com Lilly, interpretada por Mila Kunis, uma bailarina espontânea, sensual e aparentemente livre das amarras emocionais que aprisionam Nina. Enquanto Lilly representa tudo aquilo que Nina reprime, Nina possui a técnica impecável que falta à rival. Entre um diretor exigente, a pressão da companhia e uma mãe excessivamente controladora, a protagonista começa a mergul
har em um processo de fragmentação psíquica.
A obsessão pela perfeição faz com que Nina ultrapasse seus próprios limites físicos e emocionais.
O excesso de cobrança desencadeia alucinações, episódios paranoides e intensos conflitos internos.
Em diversos momentos, ela passa a enxergar em si mesma características do Cisne Negro: poder, sedução, liberdade e agressividade. Ao mesmo tempo, vive o medo constante de ser substituída por Lilly.
A relação entre Nina e sua mãe é um dos aspectos mais inquietantes do filme.
Embora inicialmente pareça existir cuidado e proteção, aos poucos percebe-se uma dinâmica marcada por controle, infantilização e inveja.
Pequenos gestos revelam esse vínculo sufocante: ajudá-la a vestir o casaco, interferir em situações que Nina poderia resolver sozinha e até oferecer alimentos inadequados à rotina rígida de uma bailarina profissional.
Quando Nina começa a conquistar espaço e reconhecimento, a relação entre mãe e filha se torna ainda mais tensa. A mãe parece incapaz de tolerar a autonomia da filha, sabotando seus horários, invadindo seus limites e reagindo com hostilidade à aproximação de Lilly. Aos poucos, Nina percebe que precisa romper emocionalmente com essa figura materna dominadora para construir sua própria identidade.
A partir da teoria de Melanie Klein, é possível compreender diversos aspectos psicológicos presentes no filme.
O conceito de inveja aparece de maneira marcante na relação entre mãe e filha. Nina deseja alcançar o sucesso que a mãe não conseguiu obter como bailarina, mas ao mesmo tempo parece sentir culpa por ultrapassá-la.
Existe nela uma tentativa inconsciente de não “brilhar demais”, preservando emocionalmente a mãe.
Porém, quando Nina finalmente se destaca, a inveja parece se inverter: a mãe passa a reagir de forma destrutiva diante do sucesso da filha.
Outro conceito importante é o splitting — ou cisão — mecanismo descrito por Klein como a divisão entre “objetos bons” e “objetos maus”. Nina oscila constantemente entre idealização e perseguição. Pessoas que antes eram fontes de admiração ou afeto tornam-se ameaçadoras em suas fantasias persecutórias. Esse processo aparece simbolicamente quando ela destrói objetos ligados à infância, como os ursinhos e a caixinha de música, numa tentativa inconsciente de romper com a mãe internalizada dentro de si.
A identificação projetiva também aparece de forma intensa. Em suas alucinações, Nina sente-se perseguida pelos quadros pintados pela mãe e pelas figuras femininas ao seu redor. Seus medos internos são projetados no ambiente externo, transformando pessoas próximas em objetos persecutórios. Tudo aquilo que ela reprime retorna em forma de imagens assustadoras, refletindo sua angústia psíquica.
Já a voracidade se manifesta na necessidade desesperada de absorver perfeição, talento e reconhecimento sem medir consequências emocionais. Nina tenta incorporar características das outras bailarinas, destrói simbolicamente figuras importantes em suas fantasias e vive uma busca incessante por excelência, mesmo que isso custe sua estabilidade emocional.
O filme evidencia como a busca pela perfeição pode esconder dores profundas relacionadas à identidade, à inveja, ao medo de rejeição e à dificuldade de amadurecimento emocional.
Também nos leva a refletir sobre a inveja no cotidiano: muitas vezes enxergamos no outro sentimentos que não conseguimos reconhecer em nós mesmos.
Em algumas situações, aquilo que chamamos de “inveja alheia” pode ser uma projeção das próprias dificuldades internas.
Por isso, falar sobre

exige cuidado, autoconhecimento e reflexão. Reconhecer as qualidades do outro, aprender a admirar sem destruir e conseguir conviver com o sucesso alheio são aspectos fundamentais para relações emocionais mais saudáveis.
Fique em paz!
Referência:SEGALL, Hanna. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Psicóloga em São Paulo — Maristela Vallim Botari — CRP/SP 06/121677





































